terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Testemunho


Decidi colocar este texto de DANIELA GOMES, visto ser um testemunho de uma mulher consciente da vida, da doença que tem e do caminho que tem a percorrer. Uma mulher madura, que tem a capacidade de escrever este texto de uma enorme dimensão. Mulher directa em expor o que sente de uma forma fantástica, sem medo. Uma mulher lutadora que enfrenta o cancro com coragem, força, dignidade e lucidez.
É necessário desmistificar a doença “Cancro”. A pessoa que a tem dentro de si Não está Morta. Todos estamos sujeitos de um momento para o outro a morrermos. A morte é a única coisa certa para todos nós. Portanto, vivamos a vida na sua plenitude, respeitando-nos uns aos outros.
A maioria das pessoas não sabe lidar com quem tem esta doença, daí terem atitudes estranhas e descabidas.

TEXTO DE DANIELA GOMES que considero desde já uma vencedora.

Hoje decidi comunicar para todas as pessoas que andam a dizer que estou muito mal , apesar de cruzarem comigo na rua todos os dias , sorridente e bem disposta. Pois bem, aqui a morta viva, está muito bem, mas agradece a preocupação. Ter cancro é chato, esgotante e obriga a muitas mudanças na nossa vida … é verdade, sim senhor. Ter cancro é uma merda, mas ter cancro é tanto uma morte anunciada como atravessar uma rua e ser passada a ferro por um carro ou ser fulminada por um ataque cardíaco. Logo ter cancro, não significa obrigatoriamente estar morto! Quando temos cancro aprendemos que os dias maus da nossa vida, foram fáceis demais. O cancro faz cair sonhos, faz cair o número de amigos perto de ti, faz cair as tuas forças, faz cair os teus cabelos, faz cair as tuas pestanas, faz cair as tuas sobrancelhas, faz cair pelos em todos o teu corpo...menos os das pernas, porque para te sentires mulher tens que ter algo para depilar. No cancro da mama, podes perder o peito, podes perder gânglios, podes perder a sensibilidade nos teus pedaços, podes perder noites de sono porque o teu corpo dói, mas não te perdes a ti. Curiosamente, a cada passo duro que dás, há algo em ti que encontras. Por vezes sentimos que não 
podemos sorrir na rua, porque estamos a ofender o mundo que nos conhece pelo andar. Mas se mostramos nos olhos e na voz, os dias em que estamos tristes, ferimos quem está perto demais. Ter cancro, transporta-nos para o limbo dos sentimentos. Tudo é intenso e adquire mais significado nesta luta. Quando estamos dentro dela, não temos tempo para pensar que é pena estar doente , os nossos dias são feitos a empunhar as armas que a ciência nos dá. As batalhas são constantes e deixam marcas, mas a recompensa merece o nosso empenho e sacrifícios. Respirar, olhar todos os dias para aqueles que mais amamos, sentir frio e ouvir o coração bater é a tua doce recompensa. A tua imortalidade é feita de momentos e das tuas conquistas, mas humildemente é feita das tuas perdas e das tuas prisões. Fiz quimioterapia, fiz cirurgia e brevemente farei radioterapia e hormonoterapia... Não porque estou a morrer, mas sim porque estas são as minhas armas para destruir esta doença e viver muito mais. Se me dissessem, não há mais nada a fazer ou para lutar... aí sim, podia dar-me ao luxo de cruzar os braços. Mas a essas pessoas, explico … peço desculpa, mas não é este o meu caso. O meu silêncio devo-o, à vontade de descansar da última batalha vencida, de querer ocupar a mente com vontades terrenas, de precisar de recuperar o corpo para a próxima guerra. Por isso, digo a certas pessoas que da próxima vez que as encontrar na rua, vou acenar e dizer-lhes: Ei, olha a morta-viva aqui! Tudo bem?